** O que motivou o livro **

Em um diálogo  entre um pandit chamado Rajamani e Linda Johnsen, autora do livro as Filhas da Deusa:

- Voce já ouviu falar de Agastya?

- Inclino a cabeça afirmativamente, reconhecendo o nome do lendário brahmarishi (aquele que vê e compreende Deus) védico.

 Ele foi um grande sábio, um dos maiores que já existiram.

E, mesmo assim, achava que a sua compreensão não estava completa. Queria ser iniciado em Sri Vidya, o supremo conhecimento secreto da Deusa. Tinha ouvido falar  que havia um mestre desta tradição em uma província distante e, um dia, partiu para encontrá-lo.

Naquela época, a viagem era feita a pé, e, assim, ele precisou de muitos meses para alcançar esse homem.

Porém, quando chegou lá, o mestre lhe disse: "desculpe, não posso inicia-lo. Na verdade, voce já está mais avançado do que eu. A única pessoa qualificada para lhe ensinar é o meu próprio guru, o fundador dessa linhagem."

Agastya ficou muito excitado. "Onde posso encontrar esse grande guru?" perguntou.
O mestre lhe disse o nome da província onde o seu guru morava. Agastya ficou chocado. "Mas essa é a minha província!", falou. Ficou envergonhado em saber que um mestre de tal magnitude morava em sua vizinhança e ele nunca soubera.

Ele mesmo tinha milhares de discípulos; nunca lhe ocorrera que um mestre maior do que ele próprio pudesse viver na mesma região.

Então o mestre lhe disse o nome da vila onde o seu guru morava. "Mas essa é a minha vila!", falou Agastya, ainda mais embaraçado. E então o mestre descreveu a casa onde o seu guru morava. "Mas essa é a minha casa"! disse Agastya.

Ele era um homem baixo, mas agora se sentiu minúsculo. Finalmente o mestre lhe disse o nome do seu guru: o supremo mestre plenamente realizado Lopamudra. "Mas essa é a minha esposa!" Gritou Agastya.

 

Esse conto lança luz sobre um dos meus relatos favoritos das antigas escrituras sagradas hindus, chamadas de Vedas.

- O senhor se lembra - pergunto - da história na qual Agastya está ocupado com as suas práticas ascéticas e Lopamudra se esgueira para perto dele e lhe pede que faça amor com ela? No início ele resiste, mas ela é muito persistente e, finalmente ele cede. Eu pensei que o texto terminaria dizendo: "E então Agastya perdeu o fruto de mil anos de rigorosa penitência", como muitas das escrituras yogis falam, sempre que alguém comete um deslize e faz sexo.
Porém, o texto termina: "Agastya tornou-se um sábio ainda mais poderoso, porque nutriu ambos os caminhos, o da renúncia e o da vida secular".

-Sim, sim! No ínicio, Agastya acreditava que a automortificação era o único modo de compreender Deus. Lopamudra mostrou a ele que a vida mundana, quando imbuída da consciência divina, também pode levar uma pessoa a Deus. Não foi uma sedução, mas uma iniciação. Lopamudra era uma mestra de Sri Vidya. Ela conhecia a Deusa. Compreendia o Tantra.

- Mas mulheres como ela eram raras. 

Rajmani sorri para mim.

- Absolutamente. Voce sabe que, na religião hindu, dizemos que todos os seres são divinos. No coração, somos todos um com Deus.

- Sim, Panditji. Esta é uma das coisas que me atrairam para a India.

- Mas voce sabia que a primeira pessoa a declarar esta unidade foi uma mulher? No Rig Veda, a nossa escrita mais antiga, há uma passagem chamada Devi Sukta.

Compreendendo que ela era uma com a Mãe Cósmica, a vidente Ambhrini cantou:

Eu sou a Rainha, fonte do pensamento, o conhecimento em si!

Voce não me conhece, embora resida em mim.

Eu me anuncio em palavras, dando boas-vindas tanto aos deuses quanto aos humanos.

Do cume do mundo fiz nascer o céu!

A comoção é o meu alento, todas as criaturas vivas são a minha vida!

Alem da extensa terra, além do vasto firmamento,

A minha magnificência se estende para sempre!

No êxtase da sua meditação, Ambhrini tinha descoberto a Mãe do Universo no âmago do seu próprio ser.

A esposa do pandit nos observa com os olhos brilhantes. Aproveito para lhe perguntar.

- Mira, durante a sua infância, voce ouviu falar sobre mulheres santas?

- Quando eu era criança - conta ela - a minha heroína era Mira Bai. O meu nome foi dado em sua homenagem. Ela teve muitos problemas em sua vida, porque era mais devotada a Deus do que ao seu marido, mas hoje, não há nenhuma vila na India onde as suas canções não sejam entoadas.

- As mulheres santas da India são as jóias da sua tiara. São as filhas da Deusa - diz Rajmani. Voce precisa aprender mais sobre elas. Mesmo hoje em dia, há muitas grandes mulheres santas na India.

Rajmani, que está me ensinando o sânscrito, sabe que gosto de escrever.

- Talvez voce deva escrever um livro.

Rio da sugestão, mas resolvo descobrir mais a respeito das "jóias da tiara" da India".

   

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