- Existem muitas grandes mulheres santas na Índia - assegurou-me o panditi Rajmani.

Quem são elas? O que ensinam? Como vivem? Buscando as respostas, parti para encontrar algumas das maiores mestras indianas dos nossos dias, líderes que formam a crista de uma nova onda de energia espiritual que está inundando não apenas o Oriente, mas também os calcinados continentes do mundo ocidental.

Na verdade, as mulheres indianas sempre foram a espinha dorsal da vida religiosa hindu.

Ao contrário da maioria das crenças religiosas ocidentais, que fazem celebrações comunais uma vez por semana, o hinduísmo normalmente é praticado diariamente em casa.

Com frequência, as adorações matinal e vespertina diante do altar familiar são conduzidas pelas mulheres da casa, e as numerosas lendas que ilustram os seus princípios mais elevados hinduismo têm sido transmitidas - em alguns casos, por milhares de anos - principalmente da mãe para os filhos.

Não é por acaso que, na Índia, a divindade que governa a educação, as artes e o conhecimento religioso é Saraswati; a divindade que rege a riqueza e o comércio é Lakshmi;

a divindade associada à força e à proteção é Durga - todas são Deusas.

Estou tentando me lembrar de uma única vez em que eu tenha entrado em um lar ou loja indianos e não tenha encontrado o retrato de, pelo menos, uma destas Deusas pendurado na parede; honestamente, não consigo recordar um único exemplo.

Enquanto na Europa e na América nós decoramos os nossos lares com fotografias de nós mesmos e dos nossos parentes, os indianos se cercam de retratos de divindades, lembranças constantes da dimensão espiritual da vida e da compassiva maternidade de Deus. Hoje, à medida que as censuras sociais contra as mulheres continuam a se esfacelar, mais do que nunca as mulheres indianas estão livres não apenas apara adorar as deusas como também para imitá-las, tanto em casa quanto no palco mundial.

No século passado, alguns dos principais gigantes espirituais da Índia agiram para corrigir um aparente desequilíbrio entre os sexos na sua tradição, mesmo quando isto significou persuadir as relutantes discípulas a virem à ribalta. Um após outro, os principais mestres indianos transmitiram os seus mantos espirituais a discípulas mulheres.

 

No início do século XX, o polêmico adepto tântrico Upasani Baba reinstituiu a tradição védica do "Kanyadin", uma espécie de convento hindu, e encorajou as mulheres a praticarem ritos védicos sem a supervisão dos sacerdotes. Ele ensinava que as mulheres são capazes de uma evolução espiritual mais rápida do que a dos homens e que os devotos masculinos precisavam cultivar qualidades "femininas", como pureza e ausência de egoísmo, para progredirem. Transmitiu a sua linhagem para a falecida Godavari Mataji, que presidiu o Kanya Kumari Sthan, em Sakori.

Ramakrishna (o devoto da deusa Kali mundialmente conhecido) transmitiu a sua autoridade espiritual à esposa, Sarada Devi; Paramahansa Yogananda ( que levou a linhagem de Kriya Ioga para o Ocidente) à americana de nascimento Daya Mata (**); Shivananda (yogi e prolífico autor do Rishikesh), à canadense Shivananda Radha; o swami Paramananda (o primeiro swami a se estabelecer na América) à sua sobrinha Gayatri Devi; o swami Lakshamana (um dos incomparáveis discípulos principais de Ramana Maharshi), à jovem rebelde Mathru Sri Sarada; Dhyanyogi Madhusudandas (o longevo expoente da kundalini yoga), a Anandi Ma; e o swami Muktananda (o embaixador-viajante mundial da siddha yoga), a Gurumayi Chidvilasananda.

 

Papa Ramdas, um dos mais conhecidos santos populares indianos deste século, compartilhou a sua missão com a sua companheira espiritual Krishna Bai. Sri Aurobindo, o influente filósofo/santo de Pondicherry, reverenciou a francesa Mirra Alfassa Richard, a quem ele chamava de "A Mãe" e que, após o seu passamento, administrou Auroville, a comunidade que ele fundou na Índia.

Meera Ma (nascida em 1960, em Chadepalle, Andhra Pradesh), que tinha visões de Aurobindo desde a sua infância, mudou-se para a Alemanha, onde os estudantes europeus lhe deram uma calorosa acolhida. A sua lenda continua a crescer.
E, para surpresa de todos, o arquiconservador Shankaracharya, de Srigeri, autorizou uma mulher (Lakshmi Devi Ashram, judia de nascimento) a fundar o primeiro templo americano da Mãe Divina em Stroudsburg, Pensilvânia.

Frquentemente, as mulheres indianas tiveram de enfrentar tremendos obstáculos para que pudessem cumprir os seus destinos espirituais. A posição social das mulheres na civilização indiana é um assunto complexo e varia consideravelmente, não só de classe para classe e de era para era, mas também às vezes, de uma vila para outra. Na verdade, a Índia é uma colcha de retalhos de muitas linguagens e culturas diferentes, um pouco fanaticamente patriarcal (devido em parte, paradoxalmente, à necessidade de proteger as mulheres durante as invasões mongol e turca), um pouco abertamente matriarcal.

Para sermos justos, mesmo na atmosfera carregada de espiritualidade da Índia, até os homens nem sempre tiveram facilidades.

Muito dos mais respeitados videntes masculinos do sul da Ásia, incluindo Ramakrishna, Ramana Maharshi, Adi Shankaracharya e mesmo Buda, enfrentaram enormes pressões familiares para que abandonassem as suas preocupações espirituais e se fixassem em estilos de vida mais normais.

Contudo, mesmo dentro do contexto de um sistema dominado geralmente pelos homens, muitas vezes as mulheres alcançaram papéis de proeminência espiritual.

Diversos episódios da vida de Adi Shankaracharya (que de acordo com os eruditos ocidentais, floresceu no século IX D. C) podem ajudar a ilustrar este fato.

Voce pode achar que nunca ouviu falar de Shankaracharya, mas é provável que voce mesmo ou alguém que conheça, tenha sido influenciado pelo seu pensamento. Shankara foi um dos primeiros yogis a divulgar amplamente a idéia de que o mundo é um total "maya", uma ilusão, e que nós na realidade, somos todos um.  

Ele foi um dos pensadores mais influentes da história asiática. Entretanto, na maior parte da sua vida, desprezou o princípio feminino, considerando tudo o que dissesse  respeito à matéria ou ao desejo uma condição inferior do ser.

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***Nota: Sri Daya Mata, também foi a primeira mulher a receber autorização do Shakaracharya de Puri, para ordenar swamis, os monásticos da SRF.

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